sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O BUCETÃO

O cenário reduzia-se a um quartinho mal cheiroso, escuro e úmido. Doutor Justiniano de Alcântara, de um lado, sua esposa, Rosa, do outro e, captalizando as atenções dos dois, no centro, Jorge Nelson, ou simplesmente Jorginho, mulatinho franzino e filho caçula de Celmira, empregada dos Alcântara há mais de uma década, já.

Cenário de inquisição, clima pesado, os olhos de opressão dos Alcântara supondo, por obviedade cáustica, os olhos do oprimido. No caso, os grandes e fugidios olhos escuríssimos de Jorginho.


Doutor Justiniano não conseguia mais sair com naturalidade às ruas, nem encarar os vizinhos classe média/alta das redondezas com o garbo que seu posto exigia. Na outra classe, a médica, certamente era motivo de chacota e desconfiança dos congêneres. Os filhos, por certo, alvo de represálias covardes e piadinhas de mau gosto na escola. Vislumbrava toda uma vida de portento escorrendo-lhe entre os dedos e, com isso, sua reputação e de sua família desmoronarem-se-lhes como dominós em sequência. Isso tudo ele já via no horizonte sombrio, pichado em tinta a óleo preta. Ah, como via!

Tudo tem causa. E toda causa tem, inexoravelmente, um culpado. Tudo causado pelo bucetão.


- Fala, neguinho safado!!!
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O banquinho de fórmica estava incômodo demais, mesmo para as perninhas magras e joelhudas de Jorge Nelson. As abraçava com os braços e com o queixinho enfiado entre os enormes joelhos sujos pelo jogo de bola. Só os olhos se atreviam a aparecer pela fresta formada por braços, pernas e joelhões. Alías, Jorginho era tão somente olhos naquele instante tortuoso e sem fim.

- Falá o quê, Dotô?
- Não te faz, moleque! Tu sabe do que eu tô falando!
- Sei não, senhor!
- Não sabe mesmo? Hein? Hein?
- Não, senhor...
- Mas tu é um neguinho muito do ordinário mesmo, hein?!
- Eu juro, dotô, não sei de nada...
- Ah, é? Mas aquilo só pode ser obra tua, negãozinho do cacete! Só tua! Abre o bico! Fala!
- Mas aquilo o quê, dotô??? Num sei de nada, não...
- Continua negando, negão? Será que vou ter que apelar pra porrada???
- Juro por Deus, dotô! Num sei mesmo, eu num sei...
- Ah, não sabe, né? E da vergonha que eu tô passando, tu sabe? Tu sabe? A vergonha da Rosa, tu sabe, nego desgraçado? E dos meus filhos? Como é que eu conserto um troço desses? Como???
- Eu num sei como posso ajudá, dotô! Se houve dano, eu num tenho culpa. Credita n´eu, dotô!
- Eu só quero que tu assuma, preto dos infernos... Assume aquela porcaria! Seja homem, assume!
- Como eu vô assumi se eu nem sei do que o senhor tá falano?

O doutor Justiniano então dá uma breve pausa, vira-se de costas para o pobre Jorginho, passa a mão na cabeça, ajeitando a franja ensopada de suor, abre um ou dois botões da camisa e, fala, com surpreendente calma, sem virar-se para o "réu":

- Tudo bem, como é que eu vou te explicar? Bom, quando eu me refiro àquilo, estou falando daquela coisa horrorosa, espalhafatosa, enorme... que tu fez pra todo mundo enxergar. Não preciso dizer o que é, né? Fui mais claro, agora?
- Não sei ainda do que o senhor tá falando, dotô Justino.
- Porra!!! Assim não dá, tchê! Tô falando da vagina, entende agora? VA-GI-NA!!!
- Sei não o que é isso...
- Puta que pariu!!! Esse nego tá me fazendo de otário, Rosa!
- Vagina! Sabe vagina? Aquela coisa que as mulheres têm no meio das pernas, que tem vulva, clitoris, pequenos e grandes lábios, com pelos pubianos do lado externo? Rosa, me ajuda, mostra pra ele... Caralho, Rosa!!! O que tu tá fazendo? Baixa essa saia, mulher!
- Ainda não sei, dotô...
- Como não sabe? Aliás, duvido que tu nunca tenha visto uma. O morro é um antro de promiscuidade. Se bobear tu já tem, por baixo, uns quinze filhos "bastardos", seu safado. Essa negada que nem tu vive pra roubar pessoas de bem e fazer filho!
- Nunca vi, num senhor. Isso é pecado.
- Tá bom, vou falar a tua língua, então. E buceta, tu já viu?
- Que isso, dotô, a mãe vive dizendo que palavrão é pecado, que somos pobre, mas somos gente decente.
- Decente o caralho, seu merda!!! Aquele bucetão arruinou minha reputação, minha família, e tu vem me falar que é um guri decente?
- Juro que num sei, dotô! Juro mesmo! Por tudo que é mais sagrado nessa vida!
- Ah, então tu não vai assumir teu erro, muito menos arrumar o que tu fez, verme? Te prepara, porque tu vai chorar, seu macaco imundo!
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Nem a tragédia da demissão após mais de dez anos com os Alcântara abalara tanto Dona Celmira quanto a vergonha que o filho, Jorge Nelson, a fez passar. Aquilo ia contra tudo o que ela a duras penas difundiu em seu humilde lar, entre seus 8 filhos. Como Jorginho a submete a tamanha vergonha? Como ele teve coragem de por o trabalho e o sacrifício de uma vida toda a perder? Como, meu Deus?

- Eu juro que num fui eu, mãe!
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A vergonha era carga pesada demais para ser suportada por Celmira. Tão pesada que morreu de desgosto, cerca de seis meses após a demissão. Tudo isso poderia ser evitado se o seu caçula, Jorge Nelson, o Jorginho, revelasse a identidade do verdadeiro "criminoso" do caso do bucetão.
Jorginho quis proteger, na verdade, Luis Alberto de Alcântara ou, simplesmente, Albertinho, filho caçula do dotô facista e mentor intelectual e operacional da fatídica e enorme buceta.
Jorginho sabia de tudo, mas não abriu a boca.
Aguentou tudo no osso. Até demais em face do desdobramento familiar trágico que a história tomou. Mas Jorge Nelson aguentou. E aguentou precipuamente, porque deixaria de ganhar os cinquenta reais e a latinha de Coca-cola prometidos por Albertinho se ele não assumisse a culpa. Jorginho não teve coragem suficiente para assumir a culpa pelo bucetão, mas em nenhum momento revelou quaisquer indícios da participação do Albertinho no crime.

Pois bem, Jorginho ganhou de Albertinho apenas a latinha de Coca por não citá-lo em nenhum momento durante o interrogatório do casal facista. Os cinquenta reais do trato, Jorginho não levou, afinal, não fora "homem" suficiente para assumir o bucetão que não era seu.

No final das contas, Jorginho perdeu a mãe, a família perdeu a renda contadinha do mês e ainda saiu como mentor implícito do imbróglio todo, mas pelo menos ganhou uma latinha de Coca. E o bucetão? Bem... aquele bucetão enorme continua lá, gravado na parede externa da ótima casa de classe média\alta, em letras maiúsculas e tinta a óleo preta, a envergonhar os Alcântara.
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Quando a coisa degringola de vez, não existem inocentes. Somente culpados.

Buceta de time!

7 comentários:

Rossato disse...

"negãozinho" hahahahahahaha.... primeira vez que vejo um aumentativo e diminutivo juntos.

Muito bom o texto, severo.

Marcelo Tiarajú disse...

Eu diria que embucetou tudo de vez!

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!

Valeu Severo!

Julio.Colorado em Sampa disse...

Discordo!!!!

Buceta é bom, então o Inter não pode ser uma buceta de time.

Gonçalves disse...

http://www.jetueunami.com/13emeRUE/meurtre/AlexRib/854pm2106kq44o6t182k

da série sexta feira muito louca

Rossato disse...

gonça matador!

aheuAHUEhaUHUAHeuhauehUHEUaHUEhAUE

Fabiano- Engineer disse...

Cara, o Gonça é muito maluco!!!
HAUHUAHUHUUA!!

col disse...

tche, abri o blog e me assustei!

concordo com o Severo: buceta de time.